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Fila Brasileiro

A agressividade do Fila

 

O Senhor Lúcio Almeida e Castro, indaga a existência da alma, nos cães. Em caso positivo, considerando-se os diferentes temperamentos das várias raças; e admitindo-se seja a mansuetude evidência de evolução anímica, o Fila puro, com sua agressividade, não seria um primário? Inferior, nesse aspecto às raças de comportamento lhano?

Preliminarmente, afirmo a existência de alma nos cães. Não será, talvez, tão sofisticada como a humana, mas, mesmo embrionária, é uma alma. Provas? Evidentemente a natureza não fornece certidão da existência nem mesmo da alma humana; todavia, constatando, no cão a presença de várias manifestações consideradas, nos humanos, de origem anímica, devemos ter a coragem de atribuir-lhes idêntica origem , quando as surpreendemos nesses nossos amigos de quatro patas.

QUESTÕES BÁSICAS

Quais seriam essas manifestações? Inteligência, amor, amizade, emoção, medo, coragem, alegria, tristeza, saudade, amor próprio, orgulho, desprendimento, dedicação, mágoa, vergonha, pudor, ciúme, conceitos de posse e propriedade, dever, obrigação. Digamos, mesmo, que as almas dos cães superam sobejamente as de muitos humanos.

Casos comprovadores dessas manifestações são conhecidos por todas as pessoas relacionadas com cães.

Em recente escrito publicado em ¨O Fila¨, mencionei a necessidade do contato corporal entre a cadela e suas crias recém-nascidas, pela perfeita simbiose decorrente, com benefícios recíprocos para a cadela, que se acalma, e para a cria, que também se anima. Virtualmente constitui permuta perfeita de vibrações. De onde promanam essas vibrações: de alguma glândula? Ou são puramente anímicas?

Atualmente, nos partos humanos, recomendação obrigatória: o imediato contato corporal entre o recém nascido e a mãe.

As vibrações nessas manifestações extravasam os limites somáticos. Qual a fonte das vibrações de amizade, de amor, de dedicação? Não há órgão interno fabricante de amizade ou de amor. Então qual a fonte desses sentimentos?

Estabelecida, pacificamente, a existência; nos cães, de uma alma, embrionária, em harmonia com seu grau de desenvolvimento, aceitemos também pacificamente a divisão das raças caninas, baseada em suas utilidades instintivas ou congênitas. Essa divisão é internacionalmente aceita.

No Brasil, adotamos a divisão norte-americana, em seis grupos:
1o) raças de caça-tiro, ou seja, de cães que só caçam aves;
2o) raças de caça-presa, isto é, de cães que só caçam animais de pelo;
3o) raças de guarda e utilidade, composta por cães de guarda, polícia, pastoreio e caça de grandes animais;
4o) raças terrier de cães rateiros e de toca;
5o) raças de luxo, composta por cães de talhes pequenos ou mesmo anões;
6o) raças de companhia, reunindo cães sem uma utilidade específica ou comum a todas.

Repita-se: esses cães são assim classificados, apesar de suas formas físicas tão diversas, por terem; em comum, aquela mesma utilidade.

UTILIDADE DO FILA

Indague-se mais : qual o proveito de se possuir um cão de raça classificada como cão de guarda e utilidade, se ele nada guarda e fornece qualquer utilidade?

O Fila tem, altamente desenvolvido, o sentimento do dever. Nas fazendas, os próprios cães distribuem os postos de guarda mais evidentes: junto da casa, no pomar, no curral, no estábulo, na porteira, etc. E, fato interessante: junto da casa, dispondo da proteção de um porão, ficam os velhos machos, e fêmeas já idosas. Durante o dia, dormitam ao sol; prestam pequenos serviços como cercar uma rês, obrigar um porco fugitivo a retornar, etc... mas após a descida da noite, encerrado o expediente da fazenda, ocupam suas posições previamente distribuídas, e, cada um, cumpre, voluntariamente, dedicada e disciplinadamente seu dever. Ninguém os fiscaliza, convence, ordena ou coage: eles consideram ser um dever a cumprir.... e o cumprem.
Graças a essa utilidade, são mantidos, procurados, queridos.

Evidentemente, esse comportamento do Fila puro é instintivo, atávico, congenito.

Ao surpreender alguém tentando adentrar a casa sob sua guarda, não se deve esperar que o Fila procure dialogar e demonstrar ser criticável sua atitude. Ele o ataca, morde e põe em fuga, mesmo porque - e os exemplos são muitos- o malfeitor também o recebe a tiros e facadas.

Pode esse comportamento do Fila ser considerado manifestação de primarismo, inferiorizando-o ante as raças de temperamento lhano como a Pointer ou a Veadeiro (Foxhound)?

Um Pointer ou um veadeiro não atacaria aquele invasor, limitar-se-ia latir um pouco, ¨ dando aviso ¨. No entanto, quando esses mesmos cães exercem suas atividades específicas, também instintivamente, não hesitam- o Pointer em levantar a perdiz, que protege seus pintinhos, para ser morta a tiros pelo caçador, e, depois, também não titubeia em enfiar-lhe os dentes, ao trazê-la, ainda viva, ao atirador; e o Veadeiro, também não vacila em perseguir a corça até finalmente dominá-la no dente, e se o caçador não chegar depressa, encontrará uma pobre gazela estraçalhada.

Poder-se-á considerar esses cães mais desenvolvidos ou evoluídos só por não agredirem humanos?

AS FORÇAS DO INSTINTO

Um Fila ama seu dono e jamais o abandona. São mesmo reconhecidos e proclamados seus exemplos de fidelidade. No entanto, um Pointer seguirá o primeiro homem que passa de espingarda a tira-colo, caçará com ele, receberá seus alimentos e, se um terceiro o chamar, o acompanhará também. Seu legitimo dono, esse talvez ele nunca mais tornará a ver. No fim das temporadas de caça, é comum se encontrar perdigueiros abandonados, esfaimados, que ficaram sem dono; por terem, eles mesmos, desprezado seus patrões.

Ser-lhe-á apropriada a qualificação de evoluído, só por não atacar invasores humanos? Mas também não se lhe pode criticar o procedimento ao seguir qualquer caçador- ele obedece às forças do seu instinto, mais fortes do que as de amizade ao humano, seu dono.

Se a natureza nos deu cães de guarda e cães de caça, conferindo-lhes instintos apropriados para essas funções, será temerário qualificar quaisquer deles, como inferiores ou superiores. São ambos perfeitos, específicos, especializados.

Criticáveis, por inúteis, serão o Pointer com medo das perdizes, ou um Fila com medo de estranhos, ou festejando-os ao invés de atacá-los. Não nos esqueçamos de Cristo expulsando violentamente os vendilhões do templo. Terá sido Cristo um primário? Então, como utilizou a violência?

Em certos momentos, só a violência reprime a violência.

UMA QUESTAO NECESSÁRIA

Sr. Lúcio, agora permita uma pergunta indiscreta: esses cães, os quais o Sr. contrapôs ao fila puro, esses cães dotados de mansuetude e comportamento lhano, não são seus¨filas mestiços? Se um dia o Sr. chegar em casa e encontrá-la inteiramente revirada, roubados todos os seus valores e, na sala, ainda lambuzando o tapete, encontrar o seu ¨fila¨, roendo o osso da alcatra que o ladrão tirou da geladeira e lhe deu como prêmio e agradecimento pela sua mansuetude e comportamento lhano, o sr. o consideraria espiritualmente evoluído ou um palerma inútil?

Volte sempre. O problema já o está preocupando. Basta pesar os prós e os contras, e o senhor virá formar ao nosso lado,ou melhor, ao lado do Fila puro. É o que esperamos. Não nos suponha contra os ¨filas¨ mestiços. Eles, coitados, nenhuma culpa tem. Nem mesmo a grande maioria dos mestiçadores tem consciência plena do mal que estão fazendo.Muitos proprietários de cães mestiços, esclarecidos, aderiram ao CAFIB, desconheciam os problemas da mestiçagem e, estavam certos de possuírem e criarem Filas puros. Agora estão.


* Dr. Paulo Santos Cruz
(Fundador e Ex-presidente do Cafib, considerado o ¨pai da raça Fila¨, em texto extraído do Jornal ¨O Fila¨, ano II, n° 22, datado de setembro de 1980, e, transcrito, com autorização do presidente do CAFIB, ano 2003, Dr. Fernando Zanetti )

 

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