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Fila Brasileiro

O Fila e a cor negra

 

I - Introdução

Após tantos anos de controvérsias, acusações - de um lado, tentativas de defesa - de outro, parece que as coisas, com o tempo (este que é "o senhor da razão") transcorrendo inexoravelmente, vão enfim "caminhando para um estado de normalidade".

Para muita gente, considerando o que se observa atualmente na realidade dos canis e criatórios em geral, a controvérsia (existência ou inexistência de Fila [puro] na cor negra) está totalmente superada, não tendo mais razão de ser!

Em referência estrita, um conhecido criador espanhol comentou, há quase 10 anos, depois de visitar canis em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Nordeste, etc, e observar/conhecer pessoalmente mais de 300 Filas, que não tinha visto um único cão negro que tivesse semelhança com o Fila; tendo comentado ainda, de forma bem humorada, que não vira "nem mesmo um mulatinho..."!

Não obstante, creio que não é perda de tempo discorrer mais uma vez sobre o tema, visto que algumas pessoas, aproveitando-se da facilidade e amplitude da comunicação informática, especificamente da internet, insistem no assunto, de forma enfadonhamente repetitiva, com indisfarçável interesse pessoal e comercial...

De tal forma, tentando garimpar em lavra abandonada, exporei as principais opiniões que foram expostas sobre o assunto, declinando, ao final, o que penso a respeito da causas, do motivo, do interesse que determinou a "criação do fila negro".

II - Opiniões

1. Dr. Paulo Santos Cruz. O "Pai da Raça" esclareceu que "Acusam-me de incoerente por haver aceito a cor preta no Fila em artigo publicado nos idos de 1951 e, agora, por considerá-la impura.

Realmente naquela época escrevi o que então via pelas fazendas onde procurava Filas, cachorros bravos e com natural instinto de guarda, para proteção de minha casa e da minha coleção de pássaros.

O que entendia então sobre cães? Nada. Sabia apenas que tinha quatro pés. Qualquer cão grande e orelhudo, numa fazenda de criação de gado, para mim, era um Fila. Não havia padrão oficial da raça, logo não teria respaldo algum se negasse pureza a qualquer detalhe somático. Os únicos, no mundo, autorizados a falar sobre Fila, naqueles tempos, eram os seus criadores, aqueles fazendeiros que chamavam a todos de "cabeçudos", afirmando-os puros Filas.

Embora inteiramente leigo, já notava diferença nos poucos pretos que encontrava, tanto que nunca trouxe um sequer. Entretanto, desconhecendo detalhes rácicos, não consegui definir essas diferenças. Só trouxe amarelos , então lá qualificados como "baios da boca negra" e rajados, lá definidos como "araçás". Só trouxe um branco com manchas grandes, rajadas, adquirido nas minas de ouro de Morro Velho. Esses cães eu os distribuía entre os amigos, porque, naquele tempo, cachorro não se comprava, "se arrumava", e eu, já inteiramente conquistado pelo temperamento e caráter do Fila, queria divulgá-lo, pois já o considerava muito superior, em utilidade, às raças importadas.

Minha atividade divulgou-se, e as publicações especializadas, que na época nasciam e fechavam rapidamente, procuravam-me, insistentemente, para transmitir minhas experiências. Foi o que fiz: relatei o que via nas fazendas. Via pretos, embora muito poucos, e os fazendeiros garantiam que eram Fila, logo eu os repetia. Que sabia eu para contrariá-los?

Hoje, tendo ainda na memória algumas cenas daqueles poucos cães pretos, e algum conhecimento zootécnico, posso afirmar que eram dinamarqueses sem orelhas operadas, e não Filas.

....

Transcorreram os anos e, certa feita, o dr. Ênio Monte, do Canil ABC, avisou-me haver adquirido, no interior, um Fila preto-azeviche. Fui vê-lo. Era um péssimo dinamarquês. Alertei Ênio sobre o perigo dos genes vinculados à cor e dos caracteres desconhecidos que poderiam acompanhar a cor preta.... mas o cão já havia sido usado. A ninhada era típica de Dinamarqueses: todos fininhos, pernaltinhas, magrinhos, pretinhos. O dr. Ênio não teve dúvida, vendeu todos para o Rio. Não sem antes registrar a ninhada, com todos os filhotes recebendo nomes iniciados com a letra "Y".

Ainda mais tarde o mesmo dr. Ênio Monte avisou-me da aquisição de outro preto, mas de uma ninhada com vários irmãos rajados, o que afiançaria sua tipicidade.
Lembrei a Ênio Monte que o Dinamarquês também tem pelagem rajada e o problema da recessividade, ou seja, cães rajados, com ascendentes pretos, poderão certamente produzir filhos pretos; assim sendo, mesmo os irmãos rajados desse cão poderiam produzir pretos......"-sublinhei- (in "O FILA", Ano I, n. 7, junho de 1979).

Através desse artigo (parcialmente transcrito) ficam evidenciados alguns fatos: no começo de suas "atividades fileiras", antes de elaborar o padrão da raça (isto é, antes de conhecer de fato o Fila), o Dr. Paulo viu alguns cães negros em fazendas, sendo que os proprietários alegavam serem Filas. Entretanto, como ele mesmo informou, tais cães tinham inegáveis diferenças em relação aos outros (típicos Filas), de cor amarela, rajada, etc. O senhor Ênio Monte, mesmo recebendo várias advertências e esclarecimentos do Dr. Paulo, insistia em tentar "encontrar" (criar) um fila preto. Os cães pretos que o Dr. Paulo conheceu na época, tidos por Filas, incluindo-se os exemplares adquiridos pelo senhor Ênio Monte, tinham expressas características de dinamarquês, ou seja, o dogue alemão (como atualmente é denominada a raça)!

Os fatos relatados pelo Dr. Paulo, acima transcritos, e referentes à "busca infatigável" do senhor Ênio Monte por "filas negros", não foram desmentidos, ao contrário! Vejamos.

"...Nós já conhecíamos a opinião do Dr. Santos Cruz, quanto aos Filas pretos, mas tínhamos a nossa. Parece primário tentar negar que os Filas periodicamente sofreram miscigenação com Dinamarqueses, Boxers, Mastiffs, etc... Os nossos Filas pretos, vendidos para o Rio, eram autênticos e, se alguns deles se parecem com os Mastiffs do século XVIII, por serem finos, pele aderente, cabeça fina, muitos outros, de nossa criação ou de diversos criadores, de cor rajada, amarela etc., também o parecem..."-sublinhei- (in "O Grande Livro do Fila Brasileiro", Procópio do Valle, Ênio Monte e outros, Brasels - Wallace Editora e Representações Ltda, pág. 298).

Mais dois fatos importantíssimos foram confirmados/esclarecidos (confessados) pelo senhor Ênio Monte:

1°) a mestiçagem que o Fila sofreu, periodicamente, com dogues alemães, boxers e mastiffs. Quanto à mestiçagem ("trabalho realizado por alguns geneticistas de plantão"), observe-se que já havia sido confessado que "... há uma dinâmica do cão de Fila que o Dr. Paulo não presenciou. Há muita coisa nova. O cão é mais bonito, mais vistoso, tem as pernas mais altas, é mais corpulento ..."-sublinhei- (obra citada acima, pág. 297). Ou seja, o Fila (antigo/verdadeiro) não era como a descrição acima, sendo que o "fila" mais "bonito, vistoso, com pernas mais altas e mais corpulento" foi "criado" após um "dinâmico trabalho genético".

2°) Ao inverso do que alegaram certas pessoas, entre estas os próprios autores do livro acima citado, não houve incoerência por parte do Dr. Paulo Santos Cruz, já que o próprio senhor Ênio Monte afirmou que, na época (anos 50/60), conhecia "... a opinião (contrária, frise-se) do Dr. Santos Cruz, quanto aos Filas pretos, ..."!!!

2. Francisco Peltier de Queiroz. Segundo suas palavras,

"... O que teria acontecido de tão drástico na raça Fila capaz de levar a mim e tantos outros criadores a repudiarem o preto?

A resposta é simples: ocorreu a mistura sem controle e ilegal de cães de Fila com cães de outras raças. Durante 20 anos, de 1950 até 1970, praticamente não se tem registro de exemplares pretos. A natureza que nos doou o Fila, selecionou-o em sua total maioria em todos os tons de amarelo e rajado, somente (além do malhado, em menor número).

Entretanto, curiosamente, o malhado, o cinza rato, o cinza azulado, o arlequim e principalmente o preto, começaram a aparecer como num passe de mágica em meados da década de 70....

... É justamente pelo reaparecimento irreal destas cores falsamente fabricadas pelos misturadores que eu e muitos outros criadores negamos totalmente sua validade. Infelizmente, a década de 70, a nossa década, é a década da grande predação em nossa raça e do aparecimento de um imenso número de vira-latas com pedigrees falsos de Fila emitidos e assinados pelo Brasil Kenel Clube..." (in "O FILA", Ano I, n. 7, junho de 1979).

3. José Gomes de Oliveira (pioneiro de criação do Fila - que nasceu (em 1904) e faleceu (em 1998) em Varginha-MG).

"Estou com 77 anos, vividos aqui em Varginha, onde nasci. Conheci todos os Reis (Coronel Mariano dos Reis e familiares) e demais criadores. Eu próprio continuei a criação de meu pai, e posso lhe dizer: Nunca vi um Fila preto. Cachorro preto não é Fila..."-sublinhei- (in "O FILA", jornal editado pelo CAFIB, ANO III, n° 31, outubro/novembro/dezembro de 1981).

4. Escritora/criadora Ines Van Damme. Certas pessoas, diretamente interessadas na questão, invariavelmente, tentando demonstrar que realmente houve incoerência por parte do Dr. Paulo Santos Cruz, alegam que este teria criado "filas pretos", citando como exemplo um cão denominado Zumbi de Parnapuan.

Todavia, no belíssimo livro escrito pela criadora acima denominada, foi devidamente esclarecido que "... Outros documentos acreditam la venta del "famoso" fila negro de nombre Zumbi de Parnapuan. Algunos criadores actuales que son aficionados al polémico color negro "acusam" al doctor Paulo de haber criado filas negros. En primer lugar, no seria nada dramático, pues en aquel tiempo no se sabia mucho de los aspectos técnicos de la raza; en segundo lugar, el doctor Paulo no habia criado este animal (su primera camada nació em 1951), sino que lo habia comprado en una hacienda y lo registró al venderlo. En una carta del 19 de mayo de 1950, el doctor Paulo Santos Cruz pide a Kenel Clube Paulista la inscripción del fila negro Zumbi del Parnapuan, criado por Joao Meritino Gomes. En aquella época era costumbre dar el proprio afijo a perros criados por fazendeiros. En una copia del certificado del Registro Inicial del Zumbi aparece el nombre del nuevo dono, Louis Siegrist.....". (in "EL GRAN LIBRO DEL FILA BRASILENO", TIKAL ediciones, Barcelona-Espanha, página 85).

5. Paulo Roberto Godinho. O próprio informou que "No podia haver outra cosa: las investigaciones me llevaron al interior del Minas Gerais, donde, incluso teniendo en cuenta el mestizaje natural con uno u otro perro aparte de aquello que los antiguos del lugar llamaban fila, aún así, a aquellos que me merecem mucha confianza por sua convivencia de décadas y décadas con estes perros nunca les oído hablar nada sobre filas de cor negro.

El CBKC ya la ACB admitem el color negro en el estándar del fila, hecho que, em mi opinión, debería ser revisado urgentemente si tenemos em cuenta que ha surgido de cruces y, posteriormente, de mestizaje comprobado. Llevo 47 anos en la cinofilia, ... y desde hace 14 anos soy juez de exposiciones y puedo afirmar que nunca he visto un fila negro com las características proprias de la raza. Asi que, si a usted le gusta un fila de ese color, seguro que posee o va a poseer un perro negro de gran tamano, sano, con o sin temperamento, pero como fila brasileño, es falso" (in "EL GRAN LIBRO DEL FILA BRASILENO", TIKAL ediciones, Barcelona-Espanha, página 198).

6. Herculano Seixas (Canil Alaketus, opinião declinada em outubro de 1996, segundo a autora Ines Van Damme).

"...El negro está permitido en el estándar, pero como juez no puedes premiar a un ejemplar negro, es mejor darle una calificación muy baja porque no es puro. En realidad, es un mestizo: córtale las orejas y se quedará en un mal ejemplar de mastín napolitano" (in "EL GRAN LIBRO DEL FILA BRASILENO", TIKAL ediciones, Barcelona-Espanha, página 199).

III. Conclusão

Foram expostos as opiniões e os esclarecimentos de incontestáveis autoridades no assunto.

No caso do Dr. Paulo, observa-se que ele, no começo de sua peregrinação cinófila; pelas fazendas do interior de Minas Gerais, encontrou alguns cães negros, grandes e orelhudos, que alguns fazendeiros alegavam serem Filas.

Encontrou também, em grupos mais numerosos, cães com características semelhantes quanto à estrutura geral, tamanho e formato da cabeça, forte temperamento e cores da pelagem (amarela, em vários tons, rajada, e branca com manchas rajadas).

A despeito de algumas pessoas alegaram que os cães negros também eram Filas (na época, como foi ressaltado pela escritora Ines Van Damme, não havia padrão e, além do mais, o homem do interior, no geral e até hoje em dia, tem muitas crenças baseadas em conhecimentos pessoais e/ou empíricos, não se importando com melhoramento e preservação de raças através de cruzamentos selecionados), constatou o Dr. Paulo que os cães de tal pelagem (negra) possuíam sensíveis diferenças em relação aos outros (amarelos, rajados, brancos...) que se apresentavam em mais grupos maiores e mais homogêneos.

De tal forma, praticamente desprezando os de pelagem negra, adquiriu, começou a criar, elaborou o padrão da raça e divulgou/incentivou a criação apenas daqueles exemplares que possuíam as características acima descritas.

Mas, na verdade, as cores (autênticas) do Filas já haviam sido informadas há muito tempo: antes de haver sido reconhecida e divulgada a mestiçagem, muito antes de surgimento do CAFIB e de todas as controvérsias que grassaram deste então!

Em um artigo dedicado exclusivamente ao Fila (publicado em fevereiro de 1942, no periódico "Caça e Pesca Editora, LTD", de São Paulo, segundo o citado livro da criadora Ines Van Damme, e transcrito também no referido livro dos senhores Procópio do Dr. Procópio do Valle e Ênio Monte), João Laraya e Benedito Faria de Camargo (sendo que este, segundo a primeira obra acima citada, sendo criador, teria sido a primeira pessoa a entrar em um ringue de exposições com um Fila, em 1939) informaram/esclareceram que no Fila "... A cor predominante é o baio escuro, mas há também os brasinos ou tigrados e os baios claros. ".

Depois de tais esclarecimentos, nada mais seria necessário para demonstrar com quem sempre esteve a verdade específica ...

Contudo, mais alguns fatos podem ser expostos, possibilitando um maior esclarecimento da questão. Já foi argumentado, por várias vezes, que a natureza não selecionou Filas negros, também, porque tal cor não seria recomendável para o sol dos trópicos, ou seja, do Brasil.

É fato conhecido, há muito tempo, que a grande função do Fila, em décadas passadas e no interior do Brasil (Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Mato Grosso), era a de auxiliar o transporte e condução de boiadas pela vastidão de nossos campos, planícies, planaltos e cerrados, muitas vezes até grandes centros consumidores, mesmo porque "boiadeiro¨ era um dos nomes pelos quais era conhecido.

Assim, um cão de pelagem negra teria muitas dificuldades para acompanhar a condução de boiadas, por dias, semanas, e até meses, a fio, enfrentando o adusto sol de nossos sertões! Ou seja, não poderia desempenhar suas funções com eficiência...

Em pertinência, também é fato divulgado que as cores de pelagem que mais refletem os raios solares são a branca e a amarela - desde o baio muito claro, até o tom avermelhado; justamente as cores típicas do Fila, ressaltando-se que a cor rajada autêntica é amarela, no fundo, com listras escuras por cima; sendo necessário também uma boa pigmentação da pele.

Não é por acaso que o bovino mais bem adaptado ao nosso clima é o Zebu (Bos Indicus ou gado indiano), que possui pelagens nas duas primeiras cores acima declinadas (sendo as raças mais destacadas da espécie acima referida: Nelore, Gir, Guzerá, Kangayan, Sindi e Indubrasil).

Já foi esclarecido que ... A cor da pelagem influencia a quantidade da radiação solar que é refletida: a pelagem mais escura (principalmente a preta) absorve mais calor que a pelagem clara, aumentando a temperatura da pele, provocando efeitos indesejáveis...

Qualquer um conhece os efeitos desagradáveis (e quase insuportáveis) de andar muito tempo exposto ao sol, portando roupas negras...

Como foi antes mencionado, existem muitas crenças no interior, e também nos grandes centros urbanos, havendo algumas diretamente ligadas à cor negra (como aquela lenda de que gato preto dá azar; de que a cor negra deve ser usada em época de luto; p. ex.).

A observação de fatos do dia a dia demonstra que, em realidade, mesmo algumas pessoas de elevado padrão econômico e cultural cultivam superstições e idéias metafísicas... De outro lado, o ser humano tem um fascínio quase irresistível pelas coisas raras ou mesmo proibidas...

Alguns anos atrás, era comum ouvir-se de algumas pessoas a afirmativa (crença) de que os cães que tivessem o céu da boca na cor negra eram melhores, sendo mais "brabos¨.

Várias pessoas mostram especial atração pelos tons negros, seja quanto a roupas, calçados, automóveis, animais, etc. Como é uma cor muito forte, que não pode ser utilizada em qualquer lugar, a qualquer hora, e de forma indiscriminada, por causar impacto e até desconforto, como se viu, torna-se rara de um modo geral.

Assim, aqueles que a utilizarem, tornar-se-ão (ao menos na crença de alguns) seletos e diferenciados...

De forma sintomática e significativa, os autores do "Grande Livro do Fila Brasileiro" alegaram que "...Um Fila preto, autêntico, azeviche é um animal sensacional." (página 295).

Na verdade, com relação a quase todas as cores existem fantasias, crendices e simbolismos...

No meu caso especifico, já houve exemplo de como as coisas incomuns, especificamente a cor negra, têm grande atração. Nos tempos de adolescência, quando, após sair do meio rural e vir morar na cidade, ainda vivia pensando em cavalos e cavalgadas, tinha o especial desejo de possuir um cavalo todo negro. Um eqüino de tal cor era (e é) muito raro de ser encontrado, causando assim aquele desejo incontido que muitos sentem em relação às coisas tidas por preciosas...

Depois de tudo o que foi exposto, de tudo o que foi narrado e esclarecido, fica uma pergunta "que não que calar": qual a causa, o motivo que fez com que algumas pessoas, entre elas certos pioneiros de criação, antigos amigos do Dr. Paulo Santos Cruz, os quais foram estimulados e apoiados por este na criação específica, tentassem "criar" o "fila preto"?

Ao lado das causa acima descritas (crendices específicas, atração pela cor negra, etc), existe uma característica humana que não pode ser desprezada e que, salvo melhor juízo, foi um fator determinante na questão, a vaidade (uma de suas definições, segundo os léxicos, é de ser um "desejo imoderado de atrair admiração ou homenagens").

Conforme o aforismo latino, "Vanitas vanitatum et omnia vanitas" ("vaidade das vaidades, em tudo vaidade").

Os louros da fama, a admiração, os elogios, sempre foram dirigidos ao Dr. Paulo Santos Cruz, a pessoa que, depois de conhecer o Fila Brasileiro e encantar-se com suas características específicas, elaborou (sozinho) o padrão, e começou a selecionar, tornando-se o "Pai da raça".

Homem que, sobejamente dotado pela natureza de sensibilidade, inteligência, cultura e erudição, iniciou a criação organizada; criou o costume de colocarem-se nomes brasileiros e/ou indígenas nos canis e nos cães; publicou artigos sobre a raça; incentivou e estimulou criadores, presenteando amigos com exemplares selecionados em seu canil (Orixá de Parnapuan ao sr. Ênio Monte, p. ex); enfim, tornou-se mui conhecido e admirado no mundo cinófilo, seja no Brasil, seja no exterior.

De tal forma, algumas pessoas (bem conhecidas), certamente influenciadas pela característica humano-pessoal acima mencionada, antes de agir pensaram: "por que nós também não poderíamos granjear fama imorredoura... ao criar, e apresentar, um tipo (cor) de Fila, hoje inexistente, e que certamente causaria grande impacto e admiração?"

Assim, teria surgido "...Um Fila preto, autêntico, azeviche ... um animal sensacional." (!)

Porém, os fatos, "a grita geral que nos ares se elevou", demonstraram que a fama derivada de tal criação não foi das mais benéficas para os criadores...

Tanto que, aparentemente insatisfeito com a repercussão negativa de seu trabalho, um dos "formadores" do "fila preto" partiu para outro lado, e determinou-se a "criar", através de cruzamentos (conseguindo atingir seu objetivo), uma nova raça de cavalos: o Brasileiro de Hipismo....!

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"Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida....."
("Os Lusíadas", Canto X, estrofe 145)


* Agenor Gracindo de Oliveira

(Criador de Fila Brasileiro, funcionário público do TRT da 9ª Região, lotado na 1ª Vara Trabalhista de Maringá-PR
gagenor@hotmail.com / agenoroliveira@trt9.gov.br)

 

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