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Origens do Fila Brasileiro

 


I- Introdução

1. Sem a pretensão de apresentar conhecimento novo sobre o tema, exporei alguns argumentos (pessoais e de outros autores) acerca da origem do Fila, enfocando especialmente o que foi mencionado pelas pessoas Paulo Santos Cruz, Procópio do Valle e Inês Van Damme.

2. Primeiramente, as únicas afirmativas concretas, de forma paradoxal, são aquelas que revelam incertezas e ignorância sobre a verdadeira/efetiva origem da raça. Com efeito, uma vez que os únicos fatos sobres os quais existe unanimidade são que os primeiros cruzamentos e os próprios locais/regiões onde ocorreram, tendo sido espontâneos ou não, não foram documentados e, por isso mesmo, "... nunca saberemos em que proporções ocorreram esses cruzamentos, e portanto não estamos em condições de repeti-las..." (Dr. Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo, in "O Fila", boletim do CAFIB-ano III, n. 31, 1981).

II- Teorias

Dr. Paulo Santos Cruz

1. Logo no começo de seus comentários, o Dr. Paulo, de maneira prudente, expõe que "... a origem do Fila encontra-se diluída nas brumas de um passado bastante longínquo... Hoje temos apenas teorias procurando explicar sua formação, porém todas com falhas visíveis....".

2. Assim sendo, de forma sábia e cautelosa, o "Pai da Raça" não formulou propriamente uma teoria a respeito da origem (região/lugar/local de formação) do Fila, mas apenas, observando as características físicas e mentais do cão, concluiu que a hipótese mais aceitável era a de que o Fila Brasileiro era o resultado do cruzamento do Mastiff, com o Bloodhound e o Buldodgue Inglês.

3. Observe-se, ainda mais que, conforme se observa na própria transcrição existente no livro escrito pelos senhores Procópio do Valle, Ênio Monte (e outros colaboradores), o Dr. Paulo não afirmou expressamente (já que ele não tinha certeza a respeito, como acima se viu) que referido caldeamento haja sido efetuado em terras brasileiras!

4. Quem conhece, ao menos por imagens, os cães acima mencionados, não pode negar que, ao menos com relação ao Mastiff e ao Bloodhound (o Buldogue atual, segundo informações, seria muito diferente do antigo...), as semelhanças com o Fila são inegáveis ....

 Dr. Procópio do Valle

1. Não quero, e não posso, afirmar que algumas afirmativas do Dr. Procópio do Valle (in O Grande Livro do Fila Brasileiro), especificamente na questão de que os ancestrais do Fila hajam sido trazidos por holandeses para o nordeste, sejam totalmente incorretas ou mesmo inaceitáveis; haja vista que existem informações, conquanto vagas, em alguns escritos documentais a respeito da vinda de cães com os flamengos. A verdade, porém, é que tais teorias, como no geral todo o livro, contêm incoerências, contradições, e até mesmo fantasias, data venia.

2. Quem já leu a obra, observou que "...para os autores, tudo é Fila...", desde mestiços induvidosos de Mastiffs e Mastins Napolitanos, passando por cães sem raça definida, indo até insignificantes vira-latas...

3. Com base em dados esparsos encontrados em alguns escritos (documentos?) antigos, foi criada (forçada, a bem dizer) uma estória de supostos ancestrais do Fila que teriam sido levados inicialmente, por holandeses, para Pernambuco e, posteriormente, através de "longa viagem", para Minas Gerais, acompanhando-se o Rio São Francisco.

4. Afirma primeiramente o Dr. Procópio do Valle que "... parece razoável que nesta área (Minas Gerais) se tente localizar a história do cão de fila", afirmando, logo após, que não existiriam provas de que o cão de fila houvesse sido trazido ao Brasil por Ingleses, Portugueses ou Franceses.

5. Para fundamentar as premissas de sua conclusão teórica acerca da origem do Fila, o Dr. Procópio do Valle estabeleceu um CICLO formado por: 1) floresta; 2) onça; 3) homem; 4) gado; 5) cão de fila.

6. Após afirmar que as florestas, inicialmente dominando todo o País e sendo fonte de alimento graças à abundância da caça, foram destruídas (na época da dominação holandesa, por volta de 1630/1654) impiedosamente, alegou que elas eram "... também uma ameaça, face à presença de animais predadores, particularmente da onça...".

7. Na pág. 33 observamos igualmente estas afirmativas impressionantes (de tão apartadas da realidade): "... As ONÇAS dominavam as matas brasileiras e constituíam um pavor para todos. A onça entrava pela janela a dentro. Os rebanhos eram perseguidos à porta das fazendas. A onça deveria, assim, ser destruída e fornecia pele valiosa. Alguns registros são sugestivos... as onças representavam presença extremamente importante e incômoda ..."-sublinhei- (descreve a seguir algumas estórias do interior do Brasil sobre tigres (?) que, perseguindo cães, teriam entrado dentro de casas, matando os moradores...).

8. Na pág. 33, foi afirmado também que "...Novas pastagens permitiram o crescimento do GADO, ... aos poucos centenas de milhares de exemplares foram se interiorizando. O gado era presa fácil das onças...".

9. Algumas considerações devem ser expostas, em rebate às afirmativas acima transcritas.

10. É óbvio que as florestas não foram "impiedosamente destruídas" de uma só vez, no período mencionado, sendo certo que tal destruição foi sendo efetuada aos poucos...(!)

11. Pouquíssimas pessoas ainda mantêm a crença (distorcida/equivocada) de que os carnívoros, especificamente os felinos, sejam tão ferozes, agressivos e perigosos como foi sugerido pelo Dr. Procópio do Valle.

12. Segundo autores especializados, com larga experiência no assunto, mesmo os leões e os tigres, incomparavelmente maiores, fortes e ferozes do que a nossa onça (em qualquer uma de suas variedades, valendo a lembrança de que somente em regiões asiáticas existem tigres em estado livre/selvagem!) têm comportamento comum/semelhante: "... Como todos os animais, ele (referência ao leão africano) teme o homem, de quem normalmente foge, e mesmo, em certas ocasiões, comporta-se diante dele como um ser desprezível... Ao lado de leões feridos que atacam o homem para defender a vida, há, como o exemplo da história precedente, os que se chamam comedores de gente e que fazem muitas vítimas entre os indígenas. Trata-se freqüentemente de animais com sua capacidade de caça reduzida, por velhice, por antigo ferimento, ou por doença; não mais possuem forças para agarrar suas presas habituais, ou mata-las. Os que foram feridos por um ser humano e suportaram longo sofrimento passaram a odiar o homem, e vingam-se em pessoas indefesas..." (in "AVENTURAS DE CAÇA E PESCA", Tony Burnand, aventuras vividas-Editora Flamboyant; 1963 -... No mesmo sentido, as opiniões de Kenneth Anderson ("Na Selva Indiana" - Editora Flamboyant-) e J. A. Hunter ("Minhas caçadas na África"; Seleções do Reader´s Digest ) , etc.

13. Como se observa, os felinos (a onça não é exceção) somente atacam seres humanos em situações especiais. As onças somente atacam o gado (e, mesmo assim, o fazem somente em relação a animais velhos, doentes e filhotes) quando falta o alimento em sua área de atuação específica (na época sugerida pelo Dr. Procópio do Valle, havia alimento para as onças, de sobra...). Meu pai e meu irmão mais velho possuíram, de 1970 até 1980, fazendas no norte de Goiás (em Colinas de Goiás e Guaraí), atualmente Tocantins. Sempre tiveram gado em suas propriedades. Eu mesmo cheguei a ficar em tais propriedades, em 1980, por 5 meses. Mais de uma vez encontrei (a pé, a cavalo, sozinho ou acompanhado por cães) onças nos caminhos que cortavam matas que havia nas propriedades rurais citadas, sendo que tais animais sempre se afastavam quando me viam. Nunca houve um caso de ataque a gado, bovino, eqüino ou muar!

14. A verdade é que opiniões como essas relatadas no livro do Dr. Procópio do Valle, sugerindo que as onças seriam animais extremamente perigosos, somente estimulam o extermínio de tais animais, e de outros, como tem acontecido realmente.

15. No que se refere, observem-se os seguintes comentários "... Enviado pela Canadian Wildlife service para investigar queixas de que os veados (caribus) do deserto canadense estavam sendo dizimados por aqueles perigosos animais, o autor mostra como os lobos não correspondem à reputação que os dá como criaturas perversas e traiçoeiras. Para Mowat, os lobos são mansos, domésticos e brincalhões. Ele acha mesmo que a família de lobos que estudou poderia servir de modelo para os homens em sua lealdade, responsabilidade e até pelo senso de humor e alegria de viver.
Esta divertida e detalhada descrição dos lobos em sua vida diária na verdade constitui uma violenta acusação à crueldade irrefletida e ao egoísmo dos caçadores, cujo interesse está em que se conserve a tradicional reputação desses animais como pretexto para matanças."-sublinhei- (in "OS LOBOS" ; Farley Mowat ; Editora Nova Fronteira; 1976).

16. Na época em que o Dr. Procópio do Valle pretende fixar o aparecimento do ancestral do Fila ("Dogue de Forte Race"), por volta de 1630/1640, não havia tanta pastagem e tanto gado no País, nem mesmo o Nordeste ...

17. Ou seja, os primeiros elementos sustentadores do "ciclo formador do Fila" não têm bases sólidas para servir como pilares da teoria... (!).

18. "... Os holandeses mandaram buldogues e nas gravuras os cães tinham focinho bem longo. Como explica-lo?... porque a solicitação de cães fazia-se aos milhares (?!), a fim de serem enviados à América, passaram a cruzar os buldogues com os Mastiffs. Esses mestiços eram de grande porte, robustos, tinham o focinho saliente, temperamento agressivo, menos violentos, porém que os buldogues e se prestavam magnificamente à caça aos índios e aos negros. Segundo o Conde Buffon (29), estes cães passaram a chamar-se "CHIENS" ou "DOGUES DE FORTE RACE". Esses cães eram os cães ingleses ..., exatamente como foram levados pelos holandeses para Olinda, Pernambuco, no ano de 1631, e apanhados na Inglaterra...".

19. Em seguida, tentando fortalecer sua teoria, o autor do livro em questão menciona a obra "Castrioto o Lusitano" (autoria de Frei Rafael de Jesus), onde é mencionada perseguição de combatentes brasileiros por cães de fila e soldados holandeses. Mais adiante, o autor menciona a pessoa "...judeu alemão Rabbin...", contato dos holandeses com índios que seriam seus aliados.

20. No romance histórico "O PRÍNCIPE DE NASSAU" (Paulo Setúbal-Editora Saraiva;1960-9ª edição), o autor menciona no prefácio que "... surpreendi ... os batavos no auge de seu domínio...Esse apogeu, que foi brilhante, e a revolução pernambucana, que foi épica, são os fundamentos deste livro...Tentei, dentro do que colhi, reconstituir com fidelidade uma era morta... evocar heroísmos popularizar a trama romanesca da rebelião, pintar o espírito bárbaro-religioso daqueles dias...".

21. Pois bem, é corrente no meio literário que Paulo Setúbal procurava ser extremamente fiel aos fatos em seus livros, sempre efetuando cansativas pesquisas em documentos históricos, antes de elaborar suas obras, ainda que, como é natural, tivesse de utilizar um pouco de ficção. Na obra mencionada, não existe uma única referência a cães de Fila utilizados por holandês ou por qualquer outro povo, durante o período de dominação holandesa e a insurreição pernambucana. O único episódio envolvendo um cão, aliás tirado de um fato narrado no referido livro "Castrioto Lusitano", menciona que dois índios entre aqueles comandados por Jacó Rabbi (o judeu alemão acima referido), Paraopeba e Poti, trocaram um cão de caça por uma prisioneira, já que tal animal (cão) era muito raro entre os sílvicolas...

22. Continuando, na obra denominada "A Criação do Mito do Brasil Holandês" (publicada por Gabriel Passetti na Revista Virtual de História, Klepsidra, com apoio nos livros específicos escritos por Boris Fausto, Sérgio Buarque de Holanda, José Antonio Gonçalves de Mello Neto, Pedro Puntoni e Luis Villalta), nada é mencionado a respeito da eventual vinda de cães com os holandeses, muito menos vinda de dogues, buldoques, mastiffs ou "dogues de forte race".

23. Ainda além, informo que efetuei pesquisa (embora superficial) nas principais bibliotecas desta cidade, sendo que nos principais livros consultados, "História do Brasil"; volume II (Pedro Calmon, Livraria José Olympio Editora; 1959); "História Geral da Civilização Brasileira" ; Tomo I (vários autores, sob a direção de Sérgio Buarque de Holanda, Difusão Européia do Livro ; SP ; 1968); e "História do Brasil", escrita pelo inglês Robert Southey (tradução do Dr. Luiz Joaquim de Oliveira e Castro, Editora Obelisco Ltda, 3ª edição brasileira, 2° volume, 1965), não encontrei uma única referência a cães de fila que tenham sido trazidos pelos holandeses e utilizados em guerras e/ou expedições contra negros ou índios!

24. São por demais contundentes os seguintes argumentos/esclarecimentos:

25. "... Na opinião dos autores (Procópio do Valle e Ênio Monte), o Fila Brasileiro seria o "Dogue de Fort Race", que "teria sido adquirido pelos holandeses na Inglaterra e trazido para Pernambuco, por volta de 1630".

O naturalista francês, George Louis Lecrerc, Conde de Buffon, cuja obra Histoire Naturellé teve seus 36 volumes publicados de 1749 a 1799, nela expôs sua "Table de L´ordre des Chiens", onde, pela primeira vez deu, aos "engelsen doggen", a denominação "dogue de fort race", por considerá-la mais apropriada.

Pois bem, os srs. Vale e Monte afirmam que o Fila Brasileiro seria o "dogue de fort race", aqui chegado com os holandeses, que por sua vez aportaram em Pernambuco por volta de 1630. Assim, 160 anos antes do Conde de Buffon criar a denominanção dogue de fort race, já os autores do livro encontraram cães em Pernambuco, com essa denominação, revelando surpreendente previsão de quase dois séculos.

Se os holandeses, no dizer de Vale e Monte, foram buscar o "dogue de fort race" na Inglaterra, a fim de trazê-lo a Pernambuco (de onde ter-se-ia espalhado para todo o Brasil), porque não foi nem é mais encontrado na Inglaterra neste último século? Se no Brasil, sem atenções específicas, o tal "dogue de fort race" sobreviveu, como desapareceu da Inglaterra, onde a tradição cinófila preservou e fixou tantas raças?"-sublinhei)- (por João Batista Penteado ; in "O FILA" ; boletim do CAFIB, ano IV, n° 39, fevereiro de 1983).

26. Afirma igualmente o Dr. Procópio do Valle que "... pudemos comprovar que os "engelsen doggen" chegaram a Pernambuco e lá permaneceram. Aos poucos se espalharam pelo Nordeste até o Ceará. E, particularmente, interiorizaram-se no estado de Pernambuco, descendo e atingindo o vale do Rio São Francisco. Eram úteis na caça aos homens, atacavam as onças e serviam na proteção das manadas....".

27. A seguir, afirma que, devido aos altos e baixos do período de dominação holandesa, assinalando-se especificamente a escassez de alimentos, os Filas tiveram "... uma efêmera presença no Norte e no Nordeste. Eles foram destruídos em pouco tempo; de fato foram comidos pelos famintos, ficando um pouco mais protegidos os que se interiorizaram....". Menciona também um episódio histórico, em que animais foram consumidos por holandeses em dias de guerra (pág. 36).

28. Além do que já foi esclarecido, demonstrando que o livro citado nada pode comprovar até o momento, já que a teoria do chamado ciclo de floresta, caça, onça, não tem argumentos lógicos e/ou concretos, um outro fato deve ser mencionado. No mesmo livro antes referido ("O Príncipe de Nassau"), é narrado um episódio em que a cidade do Recife é sitiada, sendo que os holandeses, faltando alimentos, consumiram cães, gatos, cavalos, ratos, morcegos, etc. Porém, descontando-se o exagero da narração histórica, resta ainda a circunstância de que tal consumo de animais ocorreu apenas em uma cidade, e não em todo o estado de Pernambuco!

29. Assim sendo, é de um "exagero hiperbólico" a afirmativa de que tal consumo de animais no Recife tenha determinado que os "Filas" tivessem "... uma efêmera presença no Norte e no Nordeste...".

30. É óbvio que a referida matança não teria eliminado todos os "dogues de fort race", os quais, segundo o Dr. Procópio do Valle , foram enviados às centenas, e até milhares (!), para o nosso País, especialmente para o nordeste!

31. Depois de afirmar que os cães de fila, ou "dogue de fort race", foram consumidos no litoral pelos holandeses, o Dr. Procópio do Valle sugere que os animais foram levados pelos próprios batavos para o interior, já que "... No período de fastígio dos holandeses, particularmente no tempo do Príncipe Maurício de Nassau, os flamengos desceram e dominaram o Sul até o Rio S. Francisco...", tendo afirmado igualmente que o cães de fila "... Estavam presentes nos agrupamentos holandeses e, de pouco em pouco, também nos engenhos e fazendas dos brasileiros, pois lá eles eram úteis...".

32. A seguir, transcreve alguns fatos mencionados em documentos, onde há referências a cães de grande porte - mastins, dogues, buldoques -, tentando confirmar suas teorias, especificamente de que os "cães de fila", após terem sido consumidos ("comidos") em todo o litoral do nordeste, foram levados para o interior, acompanhando a dominação dos holandeses em tal área geográfica nordestina.

33. Entretanto, na obra acima citada Gabriel Passetti esclarece que "... Os holandeses propriamente ditos estiveram durante toda a ocupação (24 anos) encurralados em um pequena faixa de terra que acompanhava o litoral e onde ficavam as suas cidades. A política colonizadora holandesa baseou-se nas cidades, diferentemente da política basicamente agrária portuguesa...".

34. Como se observa na página 37 do livro em questão, o Dr. Procópio do Valle afirmou que "... Em Minas Gerais, os cães de fila foram chegando, descendo pelo Vale do Rio S. Francisco, desde o fim do século XVII. Os fazendeiros, os boiadeiros, os açougueiros mineiros valorizaram a presença dos cães de fila acolhendo-os e nutrindo-os com um alimento ali abundante; o leite e o angu de milho. Foram assim preservados, a partir da raça de origem, o "Engelsen Doggen" ou mais exatamente o "Dogue de Fort Race", apanhados na Inglaterra, e levados pelos holandeses para Pernambuco, a partir do ano de 1631.".

35. Na página 38, afirmou que "...Os cães de fila, aos poucos, e em "longa viagem", de Pernambuco a Minas Gerais, vieram praticamente "puros". Seria, na época, difícil sua miscigenação, salvo nos fins do século XIX, quando os caçadores mostravam preferência para cães mais velozes ou com olfato mais apurado, e então mesclaram alguns espécimes, com o "Fox-hound", o galgo, o perdigueiro, ou o "Bloodhound".

36. Em referência, pode-se alegar que a "mesclagem" ("caldeamento/cruzamento") sugerido pelo Dr. Procópio do Valle, caso fossem corretas suas hipóteses anteriores, poderiam, melhor, deveriam ter ocorrido também no nordeste. Realmente, porque, como não se desconhece, no Nordeste sempre houve, igualmente, grandes propriedades que se dedicaram exclusivamente à criação de gado leiteiro e de corte.

37. Repisando o tema, pode-se afirmar que as mesmas causas que, segundo o Dr. Procópio do Valle, possibilitaram o caldeamento de raças e a fixação do Fila em Minas Gerais, poderiam também haver determinado a formação da raça Fila Brasileiro no nordeste; caso houvesse ocorrido as circunstâncias e os fatos sugeridos por ele no "ciclo"; e considerando também que no nordeste havia, igualmente, as condições "essenciais" mencionadas (leite, angu, homem, gado, etc) para tanto!

38. Contrariando sua própria afirmativa anterior, de que somente em Minas Gerais havia condições para formação do Fila, devido à presença de alimento farto proporcionado pela criação de gado bovino, o próprio Dr. Procópio do Valle afirma que o gado de Minas Gerais teria vindo do nordeste, por isso que "... Houve numerosos movimentos migratórios: Minas foi conquistada ao norte pelos baianos, abrindo os caminhos com suas boiadas..."; tendo alegado também que, no sul de Pernambuco, existiu "... verdadeira aristocracia rural..." (pág. 38).

39. Vejamos mais algumas contradições/incoerências da tese dos "ciclos" formadores do Fila.

40. Para tentar inviabilizar a teoria do Dr. Paulo Santos Cruz e tentar provar as suas, o Dr. Procópio do Valle afirmou (pág. 27) que "... Se um ou outro buldogue, Mastiff ou Bloodhound entrou no Brasil, eles foram rapidamente diluídos no sangue de milhares de cães pequenos e vira-latas. Por outro lado, o que pretendiam os caçadores eram cães velozes, com faro aguçado, fato que muitos negam serem qualidades dos Filas ..."-sublinhei-.

41. Entretanto, na página 38, para tentar provar sua tese da existência de ciclos, alegou de forma incoerente e contraditória com as afirmativas acima - que em Minas Gerais, nos fins do século XIX, "... quando os caçadores mostravam preferência para cães mais velozes ou com olfato mais apurado, ... mesclaram alguns espécimes (cães de fila; dogues de fort race), com o "Fox-hound", o galgo, o perdigueiro, ou o "Bloodhound"...".

42. Na página 171, existem os seguintes (e disparatados) comentários "... O verdadeiro fila não era caçador e nem boiadeiro, sendo utilizado para acompanhar as boiadas (???) nas longas caminhadas que se faziam antigamente – o cão "atravessado" ...."-sublinhei-.

43. Na página 278, o Dr. Procópio do Valle afirmou que "... A partir de 1630 cães do grupo Mastiff (Buldogue, Mastiff e seu mestiço Dogue de Fort Race) foram introduzidos no Nordeste do Brasil e permaneceram neste país cerca de 200 anos, sem miscigenação (!), adaptando-se ao meio ambiente...."-sublinhei-.

44. Todavia, nas páginas dedicada a tentar provar a tese dos "ciclos", o Dr. Procópio do Valle afirmara que para o Brasil os holandeses teriam trazido apenas o mestiço de Mastiff com Buldogue, ou seja, o "Dogue de Fort Race".

45. Vejamos as incoerências e/ou contradições.

46. "... porque a solicitação de cães fazia-se aos milhares (!), a fim de serem enviados à América, passaram a cruzar os Buldogues com os Mastiffs. Esses mestiços eram de grande porte... Segundo o Conde Buffon... Esses cães eram os cães ingleses ou "Engelsen Doggen", exatamente como foram levados pelos holandeses para Olinda, Pernambuco, no ano de 1631, e apanhados na Inglaterra... Um outro ponto a merecer reparo (?) foi a escolha que fizemos do Dogue de Fort Race e não do Mastiff ou do antigo Buldogue .... sobretudo, porque na Inglaterra, e mesmo na França, o que predominava então era a mistura Buldogue x Mastiff, sendo raros os cães Mastiffs puros ...."-sublinhei-.

47. Em suma, por maior esforço que se faça, não há como levar a sério as teorias ou a "tese" do Dr. Procópio do Valle!Nesse ponto, vale expor pequena digressão.

A obra acima mencionada (O Grande Livro do Fila Brasileiro)onde foram expostas as teorias e a tese que foram tema de comentários, foi escrita com o inegável propósito de responder as (e tentar apresentar defesa das) graves acusações de mestiçagem.

Tais acusações foram apresentadas a todo o País, e até mesmo em certos lugares do exterior, através de carta aberta de autoria do Sr. Francisco Peltier de Queiroz.
O livro em si tem diminuto valor, valendo apenas pelo registro de alguns fatos e imagens históricos, bem como por estimular o debate e o conhecimento público sobre os problemas do Fila Brasileiro (e dos mestiços fabricados e portadores de pedigres de 15 gerações) - tendo salientado dessa forma (conquanto involuntariamente, é óbvio) a atuação específica do Cafib e daquele que foi o Pai da Raça!

Na verdade, o leigo, ao folhear o livro, não consegue ao final distinguir/saber o que é fato o Fila Brasileiro, tamanha a distorção (de conveniência) e os disparates específicos lá expostos, seja quanto a imagens, seja quanto a argumentos!

Fechando esta parte dos comentários, devem ser muito bem ponderadas as seguintes palavras ... Entristeceu-nos muito a mestiçagem. Principalmente ao saber, nela envolvidos e praticando-a alguns dos nossos antigos amigos criadores ... A raça Fila surgiu perfeita, num acervo genético que podia ser considerado dádiva divina. Tinham de enodoá-la, vilipendiá-la. E tentaram. Infelizmente com a omisssão cúmplice dos que deviam defendê-la-sublinhei- (Srª Antonieta Santos Cruz, in ¨O Fila¨; boletim do CAFIB; ANO III; nº 29; abril, maio e junho de 1981).

 Escritora/criadora Inês Van Damme

1. Também, de forma cautelosa, limitou-se a expor alguns comentários sobre as teorias que transcreveu em seu livro (El Gran Libro Del Fila Brasileno), reconhecendo a dificuldade em se declinar qualquer afirmativa categórica a respeito do tema.

2. São interessantes os seguintes comentários pessoais da escritora:

3. "... Um aspecto técnico que llama la atención em cada uma de las três razas citadas; bien visible em las ilustraciones de la época del bulldog, del Engelsen Doggen y del San Huberto; son las proporciones del cuerpo, muy similares a las que encontramos em el estandar del fila de hoy. También las proporciones de cráneo y hocico son aproximadamente las mismas, o sea 1:1.
... Yo creo que, a pesar de la buena voluntad o del interés personal de los publicistas de las distintas teorias sobre el origem de nuestra raza, el fila guardará su secreto para siempre.......".

III- Conclusão

1. Os holandeses podem ter trazido, realmente, alguns cães para o Brasil, Mastiffs, Buldogues ou "dogues de fort race", não havendo certeza a respeito do assunto.

2. Entretanto, caso tais remessas tenham sido enviadas em pequenas quantidades, não seriam suficientes para formar, através de cruzamentos, os núcleos/grupos de Fila que, segundo a tradição e o próprio Dr. Procópio do Valle, foram encontrados no sul de Minas Gerais.

3. Na situação inversa, isto é, se as remessas de cães pelos holandeses para Pernambuco tivessem ocorrido em grandes quantidades (centenas/milhares), deveriam ter sobrado núcleos de tais cães (ou mesmo de Filas, já que, como se viu, no Nordeste havia as mesmas condições de formação da raça...) em certas partes da região nordestina, especialmente em Pernambuco e nas áreas próximas!

4. Diante de tudo o que foi exposto e comentado, ressaltando-se o fato de que os cruzamentos que deram origem ao Fila (se é que tais cruzamentos hajam ocorrido no Brasil), tenham sido ou não espontâneos, e mesmo o local exato de aparecimento da raça com suas características conhecidas, não foram documentados, havendo vários pontos obscuros na questão, penso que deve ser aceita como hipótese provável aquela que relata a formação da raça como tendo ocorrido no Estado de Minas Gerais, através do cruzamento de Mastiffs, ou mestiços destes, com Bloodhounds.

5. Após expor sua tese, agora mencionando fatos concretos/conhecidos, o Dr. Procópio do Valle expõe que "... Cinófilos paulistas, como Paulo Santos Cruz, Ênio Monte, João Ebner, e outros, foram encontrá-los (os Filas), já neste século, em pequenos grupos, povoando fazendas em Minas Gerais ... encontrados aqui e ali no Centro-Oeste do Brasil e em grupos muito mais numerosos em Minas, aí se mantiveram...".

6. É sintomático e significativo, relembrando as referências ao Fila em nossa literatura, que os escritores mineiros (Afonso Arinos de Melo Franco {em 1898, demonstrando que o conhecimento da raça, em Minas, era antigo...} e Amadeu de Queiroz {por volta de 1930...}) utilizaram a palavra Fila, revelando familiaridade com o vocábulo; ao contrário dos escritores de outros estados (Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, p. ex.), que utilizaram a expressão genérica "cão de fila" (a qual pode se referir a um molosso, um dogue, etc).

7. Assim, reiterando a existência de questões/fatos não esclarecidos, lembrando os casos dos eqüinos Mangalarga Marchador e Campolina, bem como do bovino/zebuíno Indubrasil, ressalvando-se o fato de que, quanto a tais animais, a formação/origem das raças específicas é bem conhecida, opino que o Estado de Minas Gerais seria o ''berço" (a "cuna") do "Cão Cabeçudo", "Onceiro", Boiadeiro", "Cão Boca-Negra", em suma o nosso Fila Brasileiro.

*Agenor Gracindo de Oliveira

Criador de Fila Brasileiro, funcionário do TRT da 9ª Região, Lotado na 1ª Vara Trabalhista de Maringá-PR

gagenor@hotmail.com / agenoroliveira@trt9.gov.br)

 

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