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Fila Brasileiro

Tipos de Fila

 

No CAFIB, qualificamos os mestiçadores como inconscientes, despreparados, portanto, apenas culposos. Ignoram a extensão e a profundidade do mal que praticam.

É verdade que meia dúzia conhecem perfeitamente o prejuízo que levaram à raça, a qual não dedicam sequer um pensamento de honestidade e dedicação, interessa-lhes apenas a experiência desassisada ou a comercialização, o ganho fácil, como se o cão fosse um objeto qualquer, desprovido de sentimentos, incapaz de afeição e dedicação.
 
Aproveitam-se da fama e do bom nome que aureola a raça, obtidos, precisamente por aqueles que eles sabem estar destruindo os filas puros. Felizmente são apenas uns dois ou três. A grande maioria não distingue um Fila de qualquer outro molossóide. Acham bonito o Fila grande, gigantesco. Avaliam um cão, não por suas qualidades, mas pelo pêlo. Os elogios do proprietário orgulhoso definem dono e cão: aquele um mestiçador inconsciente e este um cão mestiço.

Ouvimos repetidamente ...está com 9 meses e já pesa 80 quilos!...  ou...em pé já é maior do que eu ... ou ainda ... já está com este tamanho... e secundam a frase com um gesto da mão direita mostrando a altura do bicho, enquanto enchem com os olhos úmidos e orgulhosos, o espaço da mão ao solo, uma reprodução mental do gigante.

A maioria desses inconscientes prefere os rajado-escuros, pois a quantidade de mestiços dessa coloração, já exerce a influência do número. Demorassem um pouco mais na observação, mostrariam que esse gigantes não apresentam o fundo amarelo e, sobre essa cor, listas pretas, verticais, espaçadas de comprimento e quantidades irregulares.

Ao contrário, a fartura do preto é tal que não se sabe se o cão é amarelo rajado de preto, ou preto com rajas amarelas. As listas também não são da mesma largura em toda a sua extensão: alargam, estreitam, tornam a alargar, juntam-se formando manchas. É a coloração transmitida pelo Mastim Inglês, geralmente acompanhadas de máscara preta e prognatismo inferior.

Estes são só F1 ou crias da primeira geração do Mastim Inglês com o Fila Brasileiro. Cruzando-os, obtém-se os F2 (segunda geração), inteiramente diversos, numa variedade de cores, formas e tamanhos, capaz de surpreender até os mestiçadores. Surgem então as explicações dos ¨explicadores¨.

A raça Fila ainda não está perfeitamente fixada, daí essa grande variedade de tipos ¨ . Infelizmente, já ouvimos esta explicação até mesmo de algumas autoridades da cinofilia nacional, na tentativa de ocultar os defeitos da estrutura organizada que possibilitou a mestiçagem. No entanto, qualquer obra de genética, zootecnia ou de criação prática séria, explica e comprova a grande variedade de F2 ou segunda geração de híbridos.

UMA PROVA

O doutor ERICK ZIMEN, famoso etólogo, relata suas experiências na hibridação de lobo com cães Poodles. Os PUWOS , como denomina as crias mestiças ( PU de Pundel, em alemão e WO de Wolf, ou lobo) são seguidos de um algarismo romano indicador da geração. Assim PUWOS-I são os da primeira geração ou F-I.

Os PUWOS-I ou F-I são negros ( do poodle ), apresentam mancha clara no lombo ( do lobo ); orelhas grandes (do poodle), mas eretas ( do lobo ); trocam o pelo uma vez por ano ( do lobo ); uivam e latem (lobo e poodle); em outras palavras, herdam os caracteres dominantes de cada raça, ou seja, aqueles em homozigose.

Lamentavelmente, quanto à conduta ou sistema nervoso, todos eles são esquivos, receiosos e assustadiços, como os lobos, e não são em nenhum caso, animais domésticos

Neste particular - comportamento e sistema nervoso-, se trocarmos as raças e, em lugar de ¨PUWOS os chamarmos FIMAS ( FI de Filas e MAS de Mastim) não ficaremos longe da realidade.

Quanto à segunda geração os PUWOS-II ou F2, netos dos Poodles e dos lobos, diz o Dr. ZIMEN, citado por Klaus Thews in Etiologia

Distinguem-se bastante entre si. De cerca de 100 PUWOS-II que foram criados até agora, apenas dois se parecem. Possuem pelo curto e liso, comprido ou lanoso; orelhas eretas ou caídas, curtas ou compridas e até uma orelha ereta e a outra caída. Cada leva de recém-nascidos, apresenta novas combinações.

A cor mais freqüente é o negro, mas também há PUWOS-II pardos, cinza-prateados, e manchados. E ocorre o mesmo com o comportamento. Parece haver infinitas possibilidades de combinação. A exemplo dos PUWOS-I, observamos nos PUWOS-II que algumas características exercem grandes influencias na conduta geral. Nota-se, neles, claramente, a perene esquivez do lobo.

As características individuais dos PUWOS-II, prestam-se a livres combinações. Mas apesar dessas liberdades e possibilidades, ou precisamente por haver tantas, há duas combinações que não se efetuam: nenhum PUWOS-II tem aspecto ou conduta total de Poodle ou de lobo. Há animais que saem mais ou menos ao lobo e outros exemplares que recordam mais ou menos o Poodle, mas não se repetem as formas iniciais puras.

Também não há correlação alguma entre o quadro anatômico externo (fenótipo) e o comportamento dos animais: um PUWOS-II com aparência de Poodle, pode ter um comportamento mais lupino do que outro PUWOS-II com mais características anatômicas de lobo. As formas e a conduta são transmitidas por ramos separados.

Em qualquer outro caso de cruzamento de cachorros ocorre o mesmo. Da forma externa de um exemplar não se podem estabelecer deduções sobre seu comportamento. Um cão pastor com orelhas caídas não indica necessariamente inferioridade de caráter pelo simples fato da forma de suas orelhas não coincidir com o tipo idôneo de sua raça.

O fato da segunda geração de um cruzamento híbrido apresentar uma variedade tão grande de novas combinações resolve o enigma da grande riqueza de formas de todos os animais domésticos.

Se analisarmos cuidadosamente os PUWOS-II, veremos que as diferentes características são herdadas em forma de mosaico e com total independência mútua. Porem há características que se impõem. Essas características são herdadas em caráter dominante como ocorre com o pelame negro, do poodle, e com a esquivez,do lobo.

Essa timidez, que os investigadores de conduta de Kiel puderam observar mais ou menos claramente em todos os PUWOS devia interessar sobretudo aos criadores de cães: está muito propagada a idéia de que se poderiam obter cães mais agressivos ou duros através de cruzamento com lobos. Esses pontos de vista baseiam-se em idéias totalmente falsas a respeito da conduta do lobo e da evolução do cão doméstico.

A dureza e a agressividade são características de certas raças de cães, obtidas à base de uma seleção muito estudada e aperfeiçoada a serviço dos interesses humanos, quando devido a métodos de seleção errôneos, perdem-se essa características, não se deve acreditar que se poderia recuperá-los com o cruzamento com lobos puro sangue.

O CAMINHO CERTO

Substituímos, neste último caso, o lobo pelo Fila puro, que tem, como característica fixada, através da seleção natural dos séculos, a dureza e a agressividade. Diluída essa característica pela mestiçagem não basta, como pensam alguns, acasalar um FIMAS-II com um Fila puro, para agraciar seus filhos com essa dureza e agressividade.

Isto explica os desapontamentos de muitos que adquirem um cão com pedigree de muitas gerações, e de pais fenotipicamente semelhantes a Filas, mas ao alcançarem a maturidade, não mostram dureza, nem agressividade; e de outros, que ao invés, demonstram covardia, nervos fracos, ou indiferença e apatia.

Justificada também fica a exigência do CAFIB, de não se contentar com a aprovação dos cães através da análise fenotípica, exigindo além, que se proceda a três cruzamentos com diferentes cônjuges, para só lhe conceder pedigree definitivo se nesses acasalamentos, não surgir nenhum caso de mestiçagem,o que importaria em mais uma última ninhada que, se comprovasse a mestiçagem, condenaria o cão a perder o pedigree provisório, penalidade extensiva aos seus filhotes.

Estamos no caminho certo. Isso é o principal.

Os mestiçadores ignoram que cada detalhe físico emprega inúmeros genes, funcionando sempre em parelha, isto é, um gene fornecido pelo pai e outro pela mãe. Um exemplo: as orelhas; quantas formas e colocações possíveis! Cada uma delas reclama a ação de dois genes: tamanho grande, dois genes; tamanho pequeno, dois genes;forma globular, dois genes; forma retangular, dois genes; larga na raiz, estreitando rapidamente, dois genes; estreitando vagarosamente, dois genes; extremidade arredondada, dois genes; extremidade pontiaguda, dois genes; raiz estreita, dois genes; raiz larga, dois genes; raiz horizontal, dois genes; raiz inclinada, dois genes, concha aberta, dois genes; concha fechada, dois genes; couro fino, dois genes; couro grosso, dois genes; inserção avançada, perto dos olhos, dois genes; inserção recuada, perto do occipital, dois genes; cor igual a do corpo, dois genes; cor mais escura, dois genes; cor preta, igual a da máscara, dois genes; beirada do couro mais escura, dois genes; couro formando uma dobra vertical no centro, dois genes; couro sem qualquer dobra, dois genes; bordo anterior do couro dobrando-se, dois genes; bordo anterior colado à parótida, dois genes, etc...

Quando esses dois genes são iguais, diz-se que estão em homozigose ou que o cão, para aquele detalhe, é homozigótico; se não são iguais, ocorre heterozigose, sendo aquele cão, para aquele detalhe heterozigótico.

Evidentemente, um cão homozigótico em certo pormenor, quase certamente o transmitirá para suas crias, principalmente se seu cônjuge, naquele detalhe, for heterozigótico.

Esse exemplo da orelha multiplica-se ¨ad infinitum¨ ao sabermos que cada detalhe do corpo e da mente do cão passam pelo mesmo processo. A dificuldade quadruplica-se quando o casal é heterozigótico, por que então cada detalhe receberá quatro genes diversos, participando, no caso, as dominâncias e recessividades, relativas ou totais.

A par disso tudo, certos genes inibem outros ou os estimulam e ainda outros só funcionam em equipe, por vinculação. Pois nesta complexidade toda, alguns mestiçadores, conversando conosco e procurando justificar-se alegam:

1) Havia falta de fêmea, por isso utilizei uma de outra raça. Queria que acreditássemos que os filas puros só produzem machos, daí a falta de fêmeas;

2) Não conseguia cabeça grande, por isso cruzei com o Mastim;

3) O Fila estava ficando pequeno, por isso cruzei com o Mastiff;

4) O temperamento bravo do Fila estava dificultando sua comercialização; poucos apreciam cães violentos, por isso mesticei com Dinamarquês;

5) A cor preta, num cão de guarda impressiona mais, por isso hibridei com dinamarquês preto e com o Mastim Napolitano preto, conseguindo o fila preto e para minha surpresa, cinza rajado;


Um altíssimo prócer da cinofilia brasileira, disse-nos: Não foi você o criador da teoria que origina o Fila do caldeamento com o Mastim Inglês e outra raça? Logo, não vejo mal em mestiçar Fila com Mastins. Trata-se apenas de um retorno à origem.

Expliquei-lhes: um negro casa com uma branca. Ele negro puro, ela branca pura. A F-1 é de mulatos escuros. Acasalando dois desses F-1, a F-2 nos dará grande variedade de tons, desde brancos até negros; passando por mulatos claros, escuros, morenos, etc...

Uns com feições delicadas, da branca, porém de tez escura; outros de pele clara, porém com feições fortes de negro.

Em suma, uma grande mescla. Cruzando dois desses híbridos bem claros, objetivando obter brancos, nascerão novamente mulatos de vários tons e possivelmente um número menor de negros. Em suma, nunca mais será possível obter brancos puros partindo de mestiços. Com o tempo, então estabelecem-se homozigoses em detalhes mestiços...e nunca mais se recuperará o puro. Em suma, a genética não tem câmbio com marcha à ré, para retornar às origens em atendimento a simples desejo de um criador em férias.

AS LEIS GENÉTICAS

Certos donos de canis supõem ser a criação de cães igual as máquinas distribuidoras de chocolate: colocada a ficha na ranhura do chocolate com côco, a máquina entrega exatamente chocolate com côco; mas se preferir chocolate com nozes, basta utilizar a ranhura correspondente e a máquina, fornecerá disciplinadamente chocolate com nozes.

Queria maior cabeça? Basta cruzar o Fila com Mastim Inglês, e a máquina chamada genética, obedientemente, entregará um Fila puro com maior cabeça. E os demais genes do Mastim? A máquina chamada genética que se livre deles como puder.

Quer um ¨Fila¨ preto: basta acasalar um com Dinamarquês preto. A máquina genética milagrosamente entregará um Fila puro de cor preta. Os demais genes do Dinamarquês serão descartados, sabe-se lá como. Isso é problema da máquina chamada genética. Ela que se livre deles. Sucede que a genética não está conforme com tais experiências e procede com o esquema e as regras que Deus lhe estabeleceu. Resultado: FIMAS( ou Mastifilas ) e FILAMARQUESES .

A conseqüência do despreparo desses criadores é a bagunça que aí está, onde numa pista de Filas, surgem cães de todos os tamanhos, cores e formas.

Bagunça que leva superintendentes de exposições a deixar o julgamento da raça Fila para a hora do almoço... quando não tem quase ninguém ou a destinar-lhe uma pista um tanto escondida pra não manchar o espetáculo; que fez um juiz estrangeiro parar sua atividade para indagar o que estava acontecendo na pista vizinha; que fez um outro juiz, também estrangeiro, perguntar se havia algum concurso popular de mongrels ¨ (vira lata em inglês), e ficar todo atrapalhado pela gafe , quando lhe explicaram ser aquela a única raça brasileira.

E é; e continuará sendo. E voltará a ocupar o seu lugar de destaque, como raça, e não como quantidade, se você leitor, ajudar. Contamos com você.


 Paulo Santos Cruz

Fundador e ex presidente do Cafib, considerado "o pai da raça Fila", em texto extraído do jornal "O Fila", ano I, nº 7, de junho de 1.979, transcrito, com autorização do então presidente do CAFIB, ano 2003, Dr. Fernando Zanetti

 

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